Março Amarelo: hora de falar de endometriose

 

O período menstrual muda o cotidiano das mulheres, mas para algumas esses dias são mais difíceis que o normal. É o caso de sete milhões de brasileiras que sofrem com endometriose, doença ginecológica benigna, porém dolorosa e incapacitante. Aproveitando a celebração do Dia Internacional da Mulher, a CAASP faz coro ao movimento Março Amarelo, que clama por ações de esclarecimento e conscientização sobre a doença.

O ginecologista Giuliano Moysés Borrelli, especialista em Endometriose e Cirurgia Ginecológica Minimamente Invasiva, pós-doutor pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), conversou com a CAASP sobre os principais sintomas da endometriose, os desafios do diagnóstico e os tratamentos disponíveis.

“A endometriose caracteriza-se pela presença de células semelhantes às do endométrio, que é a camada mais interna do útero, em outros locais do corpo humano, como a cavidade abdominal. Nesses tecidos, as células se implantam e proliferam, causando inflamação – a isso chamamos endometriose”, explica Borrelli.

Essa inflamação é responsável por uma série de sintomas dolorosos que comprometem a qualidade de vida e a produtividade da mulher no dia a dia.

A famosa cólica menstrual, que em fluxos regulares melhora após uso de analgésicos simples ou anti-inflamatórios, ou mesmo é suportada sem o uso destes. Em mulheres com endometriose, chega a ser necessário ir ao pronto-socorro para uso de medicação intravenosa contra dor.

Outros sintomas característicos da endometriose são a dor na relação sexual com penetração (que pode levar a mulher a desenvolver aversão à relação sexual), dores ao urinar e ao evacuar no período menstrual, dor pélvica constante não relacionada com o ciclo menstrual e, em alguns casos, infertilidade.

De fato a infertilidade pode afetar mulheres com endometriose. Por outro lado, 50% a 60% das pacientes com endometriose irão engravidar normalmente.

Apesar de haver relatos dessa enfermidade já na literatura médica desde o Século XVII, o diagnóstico da endometriose ainda é desafio para médicos e pacientes. Segundo Borrelli, são, em média, sete a 10 anos para obter um veredito definitivo da doença.

Parece existir um consenso de que menstruar com dor faz parte do universo feminino. “Muitas mulheres são desacreditadas pelos parceiros, familiares e até mesmo por médicos no tocante ao quadro clínico de dor crônica. Por isso a importância de campanhas como o Março Amarelo”, observa o especialista.

Como a medicina ainda não consegue explicar por que a endometriose acontece, nem recomendar ações para preveni-la, reconhecer os sintomas é o primeiro passo para o diagnóstico, que precisa ser ainda associado a exames de imagem específicos. Uma em cada 10 mulheres sofrem de endometriose.

O tratamento pode ser clínico ou cirúrgico. No tratamento clínico utilizam-se terapia hormonal e orientação nutricional, e recomenda-se uma vida saudável e ativa. Tal procedimento, apesar de aliviar a dor das pacientes, não cura a doença, já que os focos da endometriose permanecem no organismo.

Em caso de ineficácia do tratamento clínico para conter a dor crônica, quando ocorre a obstrução de algum órgão ou há desejo da mulher de engravidar e sua infertilidade decorre da endometriose a cirurgia é recomendada.

Borelli explica o procedimento: “O tratamento cirúrgico é complexo e exige equipe cirúrgica capacitada em cirurgia minimamente invasiva (videolaparoscopia), com experiência no tratamento cirúrgico da endometriose nos diferentes níveis de complexidade, e com materiais de custo mais elevado que outros tratamentos”. Por esses motivos, o tratamento cirúrgico está disponível em poucos hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS).

O especialista recomenda que pacientes encontrem centros de excelência no tratamento da doença, para garantir um procedimento bem feito, que elimine a endometriose e garanta que ela não reincida nunca mais.

FONTE: https://www.caasp.org.br/noticias.asp?cod_noticia=4457